Aberta a receber feedbacks sinceros

Tirando uns livros de Freud que li quando era jovem-metida-a-intelectual, eu nunca estudei psicanálise. Então amigos terapeutas, perdoem meus erros conceituais. Eu só queria contar humildemente sobre minha recente obsessão com o ego. Obsessão não suficiente pra ir atrás do material fonte (claro), mas me vi divagando sobre Freud e Jung para o Chatgpt. Também estou me segurando enormemente para não pedir clarificações didáticas sobre o tema para a minha terapeuta: como uma racionalizadora de sentimentos, eu acho que é ruim para o meu processo saber como a salsicha é feita.
Os devaneios começaram na pira que ninguém se conhece plenamente, somos uma construção lógica de uma imensidão de elementos. Somos narradores não confiáveis da nossa própria existência. Eu tento escutar meus sentimentos e desejos com atenção, até porque como já contei aqui, se eu não faço isso, eu sangro. Mas essa é a eu de agora, sabe-se lá quem vai ser a Georgia daqui a 30 minutos. A parte boa dessa realização é que quando alguém pontua algo sobre mim que eu talvez não reconheça eu sinto o famoso soco no estômago (principalmente quando a imensidão do eu integrado grita que aquilo que foi dito é real), mas o sentimento seguinte é curiosidade.
Tento entender o suficiente para me vestir dessa concepção e ver se em todo ou em parte ela me cabe. Às vezes a roupa da opinião alheia me pinica muito e fica claro pra mim que me foram imputadas projeções infundadas. Engraçado então que existe essa contradição: não me conheço mas sei de mim - mas também não tenho certeza. Boa parte da minha autoanálise se dá na tentativa de entendimento de pelo menos os contornos da totalidade da minha psique - em ter de maneira mais concreta minhas suposições de mim. Eu até tenho uma tatuagem de um olho exatamente para me lembrar de ter a coragem de puxar o pano que cobre o meu quadro a-lá Dorian Gray. A dificuldade é que percebo que essas fronteiras são fluidas, muito mais membranas que muros.
Esse meu diálogo interno surgiu de uma aflição de perceber à minha volta pessoas cujo eu consciente delas parece ser diametralmente oposto a como eu (e outras pessoas com quem fofoco) as percebo. Elas se colocam em construções tão rígidas, erguidas em palácios tão grandes e altos, que o inconsciente reprimido delas grita para quem se dá ao trabalho de olhar. Elas acabam ficando nuas para todo mundo, exceto talvez, para elas mesmas. O que é um efeito maluco porque eu acho que o ponto total que levou essa pessoa a inflar esse balão é exatamente esconder esse sentimento de todo mundo (ou de si mesmo principalmente - talvez?).
Chegamos enfim ao cerne das minhas sessões de terapia recentes e da minha ruminação. O que causa essa exposição que considero extremamente invasiva é uma falta de visão consciente do id e do superego pelo ego (acertei?) ou a falta de aceitação do que de fato enxergamos? Imagino que parte da resposta está em fontes primárias da psicanálise que não tenho saco de ler, mas para mim essa passou a ser uma distinção muito importante porque quer dizer que a minha tatuagem está no mínimo incompleta. Continuando a metáfora do Oscar Wilde, quem não quis levantar o pano para se olhar, e quem levantou mas negou o que viu, pode estar igualmente fazendo papel de ridículo. Me assusta pensar que a minha busca por ter suposições honestas e concretas sobre mim não me blindam desse horror.
É que eu tenho verdadeiro pavor de ser essa pessoa que descrevi aqui sem saber: uma caricatura ambulante. Rezo todos os dias pra ser tudo menos obviamente ridícula no olhar do outro. Pago para não ter as minhas inseguranças estampadas em todas as minhas falas. Como autodefesa, tenho vontade de ter minhas vulnerabilidades menos claras, ter a profundeza do meu ser escrita em braile pra que só quem eu permito me tocar possa me ler. Uma ilusão de armadura que me conforta, mas estaria feliz simplesmente de viver no equilíbrio entre esses dois extremos.
Ou seja, minha obsessão com o conceito do ego nada mais é que a racionalização de um medo de que os outros me vejam com mais clareza do que minha própria visão permite. Para minha terapeuta, parece que o antídoto para não ser o imperador com a roupa invisível é aprender a ser mais gentil comigo mesma. Esse conselho sempre me soa tão bobo, e honestamente me dá raiva, não estranharia se às vezes eu virasse os olhos quando ela me diz isso. Ser gentil comigo mesma. Nossa, disruptivo, hein, Maria Paula. É que parece um conceito tão simples, e ainda tão difícil. Apesar do meu bode eu sei que ela tem razão, parte da solução é amar também nossas partes ruins. Realmente, os defeitos que ignoramos apodrecem e começam a feder - tipo os europeus no verão - todo mundo sente o mau cheiro, menos eles mesmos. E olha que tenho lugar de fala: estou na Europa e os odores não estão agradáveis.



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