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Como uma boa millenial eu sou viciada em dopamina (culpo o Nintendo 64 que me ensinou cedo sobre euforia). Por isso, a Rotina é minha arqui-inimiga. É só a vida ficar um pouco insossa e não ter nada no futuro que me faça sonhar, que o dia-a-dia vira esmagador. Ou - como descrevo pra minha terapeuta - o marasmo me dá uma vontade louca de deitar no chão no meio da sala de barriga pra baixo. E ficar… para todo o sempre. Bem ali, cara-no-tapete. 

 

É desse tédio insuportável que (as vezes) nascem as sarnas que me coçam: se o jantar está sem graça eu me encarrego de ser o entretenimento; se estou em uma reunião meio parada mando mensagem pra boys que não me interessam (se você já recebeu mensagem minha do nada em uma quinta de manhã - taí oh). Se eu não tomar cuidado, um cotidiano morno aumenta a minha fatura de cartão, meu peso na balança, a minha chance de me meter onde não fui chamada e de espalhar um segredo secreto gostoso de ser contado.

 

Não é saudável ter asco de uma vida tranquila então hoje aos 34 anos aprendi a conter os maiores danos desse vício purpurinando felicidade ao longo dos meus dias. Meus gatos cumprem esse papel, outrora o tiktok me entusiasmava. Hoje, em uma fase estável, estou parindo um blog. Mas de todas as coisas do mundo, o que mais me ajuda a sair da areia movediça da cama é uma bela caneca nova.

 

É por isso que tem fases que posto foto do meu café quase todas as manhãs: eu estou apaixonada, obcecada, deslumbrada. O que me deixa triste é que esse encantamento é igual café: passa. Tenho dó desses meus ex-amores largados, imagino minhas canecas se sentindo igual os brinquedos de Toy Story. Coitadas. Mas hein, contei essa história sofrida só pra poder ter peso na hora de perguntar: alguém tem o link de uma caneca bem legal para eu comprar? 

 

Esse papo de coach, escrito no taxi a caminho do escritório, começa com o fato de que hoje cedinho liguei pra minha mãe e comprovei que ela é realmente uma mentora maravilhosa - um dos trabalhos dela é esse mesmo: mentorar mulheres. Isso porque acabamos falando 30 minutos de trabalho e ela me deu ótimos pontos para pensar.

 

Desligamos e fiquei olhando para a tela do meu laptop sem saber muito bem o que fazer. Eu estava com muitas ideias (sobre trabalho) então eu levantei; fiz outro café (pensando), arrumei a casa (pensando). Fui pensar no banho, fui pensar secando o cabelo, pensei enquanto comia e me vestia.

 

E ai horas e muiiiiiitos pensamentos depois, quando finalmente sentei no meu laptop de novo, senti que não tinha feito nada hoje. Então seguem algumas reflexões rápidas e desestruturadas, porque ninguém aguenta mais texto com cara de AI, e eu preciso agora, no estrito senso, trabalhar:

 

Home-office é melhor que escritório para atividades pensantes. Eu não vou saber o retorno dessas horas contemplativas, mas com certeza elas se pagam. E, de forma mais abstrata, será que agora que o AI deixou mais fácil executar atividades, esse tempo de pensamento não deveria ser mais valorizado? Espero que a minha chefe, que (talvez) vá ler isso, ache que sim.

 

Venho compondo (quase) todos os meus looks-do-dia com um recém-furtado lenço da Missoni, promovido a cinto, encontrado no guarda-roupa da minha mãe. Quase 20 anos atrás, quando eu tinha 16 anos, a marca era o au-ge. Inclusive deve ter sido nessa época que minha mãe comprou o lenço-agora-cinto.

 

Como uma pessoa (um pouco) maximalista, amante mas não estudiosa da moda, eu sempre fui uma entusiasta da Missoni. Pra mim, a marca carregava um glamour meio intelectual sexy. No meu imaginário, algo parecido com a estética da Gucci de Alessandro Michele (saudades).

 

Porém, como apreciadora-ainda-não-consumidora, fui percebendo o desgaste daquela estampa, que foi muito copiada e, com a expansão do Missoni Home, começou a aparecer em tudo: almofadas, toalhas, cobertores. Senti uma saturação, e para mim, a marca simplesmente sumiu.

 

Essa obsessão pela minha nova peça de roupa me fez voltar a prestar atenção na Missoni e o algoritmo-comedor-de-cérebro percebeu e me trouxe organicamente a notícia de que, em março deste ano, a família Missoni oficialmente saiu do quadro societário da empresa. Para os curiosos financistas (eu), isso foi o resultado de um aumento de participação do fundo italiano FSI e da entrada da Katjes Quiet Luxury, uma holding alemã.

 

Intuitivamente, eu já imaginava que a Missoni não tinha sido vendida para um dos grandes conglomerados da moda, porque tinha ficado de fora das grandes tendências digitais que dominaram o luxo nos últimos anos. Fui fortemente impactada nas redes sociais por duas estéticas: o retorno das estampas psicodélicas e maximalistas, personificado pela Pucci, e, quase como uma reação pendular, o minimalismo disciplinado do quiet luxury, cujo exemplo mais evidente é a Loro Piana. Coincidentemente, ambas fazem parte do grupo LVMH.

 

Como estou totalmente fora desse setor, fico me perguntando que parte desse movimento é realmente orgânico e que parte somos entuchados com tanta propaganda por esses grandes grupos e sua força criativa, que eles te convencem a gostar de uma determinada estética. Afinal, são eles que muitas vezes conseguem conectar uma tendência mais difusa a uma marca específica, que acaba simbolizando o movimento e convertendo vendas.

 

Se eu sou referência — e sempre acho que sou —, meu sentimento é que o momento cultural agora parece estar indo exatamente na direção oposta aos últimos anos. Eu ando sentindo um interesse crescente por coisas mais analógicas, nichadas. Marcas que parecem ter escapado da industrialização total do luxo.

 

Nesse cenário, a Missoni se encaixa quase perfeitamente. Então talvez meu lenço-promovido-a-cinto não seja apenas um acaso estético. Pode ser também um pequeno sintoma dessa mudança de direção. Quem sabe a Missoni não volte desse jeito: um luxury intelectual maximalista escondido. Só fico triste que se eu estiver certa, mesmo 20 anos depois, sigo no lugar de admiradora-não-consumidora.

 

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