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  • Georgia Marmonti
  • May 15

Na minha biblioteca de sentimentos, tem muitos cacarecos de enfeite. Lá cataloguei a lembrança de ontem: eu dançante em noite quente. Reforçou muito o meu desejo pelo contrário de uma existência limpa. Que pavor de vida-sem-vida. De flutuar sem perceber em direção a uma cabeça-de-consultório-de-dentista. O desapego me parece um conceito tão estéril. Fico pensando sobre como Maio sem a bagunça de Belém teria sido infinitamente mais triste/tédio. Hoje acordei ansiosa e fiz uma tentativa falha de fugir de ir pra praia. Que bom que no fim eu vou, mas percebo que preciso achar tempo pra parar. Respeitar a vontade-sinal de adensamento urbano-psíquico. Preciso achar uma hora pra separar o que é mesmo morada e o que são meus entulhos. Tenho medo de demolir uns puxadinhos que não me servem mais. Mas antes deixar um espaço sem função, que deixar uma estrutura revestida de textura-imitação. Kali, me livre de uma mente com tijolos-autocolantes. Quero ser feita de parede de pedra maciça, ou de vento.

 
 
 
  • Georgia Marmonti
  • May 7

Updated: May 8

Estou sentindo que estamos todos exaustos, mais que o normal. E eu acho que o paradoxo é que tenho percebido que as pessoas estão querendo fazer cada vez mais coisas. A roda do hamster está acelerando.

 

Eu sou uma pessoa com muitos hobbies, e são cada vez mais frequentes as perguntas: “por que você não vende seus desenhos?”, “você já pensou em monetizar melhor seu conteúdo?”, “por que você não faz publi?”. Parece que, se você faz algo minimamente legal, imediatamente as pessoas te sugerem ideias de como transformar isso em dinheiro. Como se o fato de você fazer uma atividade pura e simplesmente porque ela te faz feliz fosse insuficiente.

 

Eu sempre respondo frustrada que, no momento em que o meu hobby virar produto, ele vai morfar em uma “funça”, “meta”, “entrega”. Eu sei que está tudo caro e estamos todos duros, óbvio. Mas meu pensamento é que, se essa renda adicional vai vir pra supérfluos, e pra conseguir comprar essa brusinha a mais eu tiver que transformar uma fonte de felicidade em uma lista nova de afazeres: não vale a pena. Também acho que essas pressões são sintomáticas de como as pessoas estão cada vez mais iludidas que é fácil ganhar dinheiro e, no fim, muito trabalho vai — talvez — me gerar um trocadinho.

 

Em um dia bom, eu demoro uns 40 min para ir e 40 para voltar do trabalho, e é perigoso ficar no celular, então eu uso esse tempo pra ler, organizar meu dia, escrever pra esse blog e discutir com o taxista sobre como o Brasil está prestes a virar a Venezuela. E eu amo esse tempo.

 

Mas, como nossos próprios pensamentos nos surpreendem: levei um susto hoje entrando no táxi porque eu me vi pensando: “bem que eu podia ter um AI bot trabalhando por mim enquanto eu estou no carro”. A gente precisa ser parado, eu inclusive. Chega dessa mentalidade que sente a necessidade de ser produtiva o tempo todo. Quer saber, no mais, o mundo precisava ser menos eficiente, pra todo mundo ficar mais ciente.

 

Deus, coloca todo mundo de castigo. Vamos todos sentar na cadeirinha do pensamento e refletir em como usar nosso tempo de maneira mais rica, no sentido não-literal. Time-out.

 
 
 
  • Georgia Marmonti
  • Apr 28

Eu perguntei para a IA qual era a probabilidade de, em 1991, eu ter nascido em território brasileiro: 2,5% de chance. Ou seja, eu já nasci sortuda — que maravilhoso que entrei na fila certa e vim parar aqui.

 

Esse final de semana fiz uma longa caminhada entre Copacabana e o Leme, e no caminho fui listando justificativas para o amor fervoroso que sinto pelo meu país: caipirinha, boteco, cavaquinho, borogodó, cabogó. Eu gosto até dos nossos paradoxos: tem a palavra "ordem" na bandeira do povo que mais ama uma baguncinha.

 

Me veio também a lembrança de um fenômeno cultural que acho que é do Nordeste (como muito do que temos de melhor) e com o qual me identifico enormemente: o prazer de "dar um cheiro". Sou viciada em algumas palavras — "fungada" é uma delas. Sublinhei outras por aqui.

 

Cheiro, para mim, é binário: ou me incomoda, ou me traz completo conforto. Quando eu era pequena e minha mãe viajava, eu dormia com as camisolas dela. Charuto lembra meu pai; cigarro, algumas amigas queridas. Portanto, ao contrário da média da população, eu gosto muito dos dois cheiros.

 

Vi minha mente imersa nesse tema nos últimos dias e, ontem, no meu momento mais contemplativo do dia — o banho —, me peguei chorando. Eu perdi os dois cheiros que mais amei na vida. Um cheirava casa, o outro paixão dilacerante.

 

Confesso que guardei uma camiseta sua no fundo do meu armário, dentro de um saco de linho bege. Cogitei comprar aquela máquina de embalar à vácuo, em uma tentativa exagerada de te manter ali. Em alguns momentos de fraqueza, me vejo resgatando ela para inalar você. Ultimamente esse exercício vem me deixando mais triste, porque o tempo tem te levado embora de mim. Estou sofrendo por antecipação que em um futuro próximo chegará a última vez que vou sentir o seu cheiro. Nesse dia, da gente vai sobrar só essa sua camiseta preta sem-odor. 


 
 
 
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