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  • Georgia Marmonti
  • 6 days ago


Começou com uma muda que plantei em mim e cresceu grandiosa, envergada em tudo que era eu. Suas raízes entranhavam minhas colunas, se apoiavam nos meus projetos. Em meio aos seus troncos: cheiro de casa. Fortalecida por chuvas de beijos, suas folhas umedecidas por lágrimas. Sustentada agora em uma morada que abandonei, em um sonho desfeito por desonestidades.


No começo da morte tentei expurgar aquela árvore do centro de mim, mas entendi que seria impossível cortar algo que tanto nutri.


Ainda visito aquele espaço, e me comunico com aqueles sentimentos. Às vezes chorando o privilégio da sua existência, às vezes para transmutar aquela dor do fim. Desvinculei esse lugar interno da pessoa externa que me feriu. Entendi que possivelmente o amor que restou é só meu, e com isso limpei as teias da romantização que enobrecia quem desdenhou desse nosso viveiro. Sobrou para mim reverenciar a nossa árvore sozinha. Me incumbi de dignificar ela por nós dois.


Gosto das noites que sonho com você. Geralmente temos longas conversas sobre nosso cotidiano, novas rotinas, antigas reclamações. E naquele mundo imaginário nos reencontramos, e a saudade cessa por instantes. Não sinto falta de quem você é hoje, inclusive porque sinto que não te conheço mais. Queria falar com aquele fragmento de pessoa congelada no tempo, que carrego comigo. A saudade é daquela semente de onde nasceu meu carinho. De quando você mexia no meu pé enquanto assistíamos TV, sentados no nosso sofá cinza.


Texto de 2022.

 
 
 
  • Georgia Marmonti
  • Jun 16

Teté, eu te acho grandiosa e isso tem desafiado meus próprios (pre)conceitos, porque eu me cobro ser uma grande mulher em um sentido que percebi bem estrito. Se resumida ao formato do LinkedIn, a sua vida foi de poucas (se nenhuma) conquistas, mesmo você adorando contar que passou em Direito no Largo de São Francisco.


Mas, aos meus olhos, você é a maioral — e as razões me parecem tão intangíveis. Então fiquei me perguntando nos últimos dias, enquanto meu coração quebra com a sua iminente partida, como definir o que te faz gigante. Mesmo ardendo de febre ontem, a minha cabeça seguia a um milhão, quase em um delírio de desespero que permaneceu hoje. Parece importante pra mim chegar nessa descrição enquanto você ainda está aqui. Uma vontade louca de escrever uma homenagem pra você no presente.


Vou sentir falta de te falar groselha de domingo para rirmos juntas; esses últimos meses foram tão especiais para mim. Estar com você é sempre um imenso prazer. Nem por um segundo eu me senti obrigada a ir te ver, porque você é uma alegria contagiante. E talvez seja isso que eu queira ser quando eu crescer: feliz. Óbvio que você também tinha seus momentos de desânimo, mas isso torna o seu exemplo mais factível e possível pra mim.


Acho que a minha dificuldade de conseguir definir o porquê da sua grandeza também se dá ao fato de que eu raramente associo a imagem da pessoa forte ao sorriso e à risada. Percebo uma rigidez assumida na visão do mundo sobre a fortaleza de espírito. A de que ela é parecida com a força física e pode ser resumida à capacidade de sustentar peso. Ser forte é ser circunspecto. Essa é até uma reflexão que eu tenho tido recentemente: a de que eu preciso ser mais séria para me levarem mais a sério.


Mas eu sei da sua força; às vezes reconheço ela em mim. A de renascer das cinzas, de não se deixar amargurar com os invernos da vida, de dar risada de você mesma e do seu dedo que não dobrava mais. Você surpreendia todo mundo quando, mais uma vez, te víamos lúcida e inteira, mas a mim não. Eu via nos seus olhos uma sede de viver e isso me dizia que você seguiria aqui. Esse fogo tinha sumido na minha última visita e eu soube ali, na semana passada, que estava na hora de você ir.


Vó, não esquece do nosso combinado, te dei uma missão para quando você estiver ali do outro lado. E espero que você consiga superar seu ódio por gatos, para poder me visitar. Você é fervorosamente amada por todos nós que ficamos. Espero que eu possa fazer como você, inspirar um amor profundo nas pessoas que me conhecem simplesmente por ser eu. Se eu conseguir isso, eu vou saber que eu fui uma grande mulher, igual à minha avó Teté.

 
 
 
  • Georgia Marmonti
  • May 15

O desapego de pessoas, roupas e objetos me parece um coneito tão estéril. Na minha biblioteca de sentimentos, tem muitos cacarecos de enfeite.


Lá cataloguei a lembrança de ontem: eu dançante em noite quente. Fico pensando sobre como Maio sem a bagunça de Belém teria sido infinitamente mais triste/tédio.


Reforçou muito o meu desejo pelo contrário de uma existência limpa. Que pavor de vida-sem-vida. De flutuar sem perceber em direção a uma cabeça-decorada-de-consultório-de-dentista.


Mesmo assim, percebo que preciso de um respiro.  Respeitar a vontade-sinal de adensamento urbano-psíquico. Preciso achar uma hora pra separar o que é mesmo morada e o que são meus entulhos.


As vezes tenho medo de demolir uns puxadinhos que não me servem mais. Mas antes deixar um espaço sem função, que deixar uma estrutura revestida de textura-imitação. Kali, me livre de uma mente com tijolos-autocolantes. Quero ser feita de parede de pedra maciça, ou de vento.

 
 
 
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