Cheiro de Pessoa
- Apr 28
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Eu perguntei para a IA qual era a probabilidade de, em 1991, eu ter nascido em território brasileiro: 2,5% de chance. Ou seja, eu já nasci sortuda — que maravilhoso que entrei na fila certa e vim parar aqui.
Esse final de semana fiz uma longa caminhada entre Copacabana e o Leme, e no caminho fui listando justificativas para o amor fervoroso que sinto pelo meu país: caipirinha, boteco, cavaquinho, borogodó, cabogó. Eu gosto até dos nossos paradoxos: tem a palavra "ordem" na bandeira do povo que mais ama uma baguncinha.
Me veio também a lembrança de um fenômeno cultural que acho que é do Nordeste (como muito do que temos de melhor) e com o qual me identifico enormemente: o prazer de "dar um cheiro". Sou viciada em algumas palavras — "fungada" é uma delas. Sublinhei outras por aqui.
Cheiro, para mim, é binário: ou me incomoda, ou me traz completo conforto. Quando eu era pequena e minha mãe viajava, eu dormia com as camisolas dela. Charuto lembra meu pai; cigarro, algumas amigas queridas. Portanto, ao contrário da média da população, eu gosto muito dos dois cheiros.
Vi minha mente imersa nesse tema nos últimos dias e, ontem, no meu momento mais contemplativo do dia — o banho —, me peguei chorando. Eu perdi os dois cheiros que mais amei na vida. Um cheirava casa, o outro paixão dilacerante.
Confesso que guardei uma camiseta sua no fundo do meu armário, dentro de um saco de linho bege. Cogitei comprar aquela máquina de embalar à vácuo, em uma tentativa exagerada de te manter ali. Em alguns momentos de fraqueza, me vejo resgatando ela para inalar você. Ultimamente esse exercício vem me deixando mais triste, porque o tempo tem te levado embora de mim. Estou sofrendo por antecipação que em um futuro próximo chegará a última vez que vou sentir o seu cheiro. Nesse dia, da gente vai sobrar só essa sua camiseta preta sem-odor.



É bom quando alguns cheiros se vão. Às vezes, a gente só chora porque tem medo de deixá-los ir, especialmente os intitulados "paixão dilacerante". Espero que você fique bem. Tudo passa.
Nossa, é o sentimento que eu tenho pela minha mãe. Ela ainda está aqui, mas qdo ela partir, vou querer guardar o cheiro dela pelo maior tempo possível 😥