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Reflexões de uma peça furtada

  • 22 hours ago
  • 2 min read

Venho compondo (quase) todos os meus looks-do-dia com um recém-furtado lenço da Missoni, promovido a cinto, encontrado no guarda-roupa da minha mãe. Quase 20 anos atrás, quando eu tinha 16 anos, a marca era o au-ge. Inclusive deve ter sido nessa época que minha mãe comprou o lenço-agora-cinto.

 

Como uma pessoa (um pouco) maximalista, amante mas não estudiosa da moda, eu sempre fui uma entusiasta da Missoni. Pra mim, a marca carregava um glamour meio intelectual sexy. No meu imaginário, algo parecido com a estética da Gucci de Alessandro Michele (saudades).

 

Porém, como apreciadora-ainda-não-consumidora, fui percebendo o desgaste daquela estampa, que foi muito copiada e, com a expansão do Missoni Home, começou a aparecer em tudo: almofadas, toalhas, cobertores. Senti uma saturação, e para mim, a marca simplesmente sumiu.

 

Essa obsessão pela minha nova peça de roupa me fez voltar a prestar atenção na Missoni e o algoritmo-comedor-de-cérebro percebeu e me trouxe organicamente a notícia de que, em março deste ano, a família Missoni oficialmente saiu do quadro societário da empresa. Para os curiosos financistas (eu), isso foi o resultado de um aumento de participação do fundo italiano FSI e da entrada da Katjes Quiet Luxury, uma holding alemã.

 

Intuitivamente, eu já imaginava que a Missoni não tinha sido vendida para um dos grandes conglomerados da moda, porque tinha ficado de fora das grandes tendências digitais que dominaram o luxo nos últimos anos. Fui fortemente impactada nas redes sociais por duas estéticas: o retorno das estampas psicodélicas e maximalistas, personificado pela Pucci, e, quase como uma reação pendular, o minimalismo disciplinado do quiet luxury, cujo exemplo mais evidente é a Loro Piana. Coincidentemente, ambas fazem parte do grupo LVMH.

 

Como estou totalmente fora desse setor, fico me perguntando que parte desse movimento é realmente orgânico e que parte somos entuchados com tanta propaganda por esses grandes grupos e sua força criativa, que eles te convencem a gostar de uma determinada estética. Afinal, são eles que muitas vezes conseguem conectar uma tendência mais difusa a uma marca específica, que acaba simbolizando o movimento e convertendo vendas.

 

Se eu sou referência — e sempre acho que sou —, meu sentimento é que o momento cultural agora parece estar indo exatamente na direção oposta aos últimos anos. Eu ando sentindo um interesse crescente por coisas mais analógicas, nichadas. Marcas que parecem ter escapado da industrialização total do luxo.

 

Nesse cenário, a Missoni se encaixa quase perfeitamente. Então talvez meu lenço-promovido-a-cinto não seja apenas um acaso estético. Pode ser também um pequeno sintoma dessa mudança de direção. Quem sabe a Missoni não volte desse jeito: um luxury intelectual maximalista escondido. Só fico triste que se eu estiver certa, mesmo 20 anos depois, sigo no lugar de admiradora-não-consumidora.

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