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Meu maior medo

  • Jul 14
  • 2 min read

Eu tenho uma doença no trato digestivo que me faz sangrar. A colite é uma das poucas doenças para as quais existe um consenso médico de que está associada à psicossomatização (claro que não só; tudo é multifatorial). Por muito tempo, eu achava que ela aflorava porque havia uma desconexão entre minha mente, meus sentimentos e meu corpo. Hoje vejo exatamente o oposto: enquanto eu não consigo digerir integralmente determinada emoção, aparentemente fico impedida de digerir fisicamente qualquer outra coisa.

 

A resposta do que precisa ser processado para a minha colite passar já foi mais difícil de encontrar. Hoje tenho clareza da sua causa: medos que me consomem de dentro para fora. Mas o que aprendi a custo de sangue é que conhecer a causa e ter acesso a ela são dois processos completamente diferentes. Infelizmente, a cura passa por derrubar uma barreira que impede o sentir integral; ela atravessa a racionalização.

 

Em pico de sangramento, me pergunto sobre esse bloqueio. Às vezes percebo sua construção tijolo a tijolo e, quando a dor física vem, eu já a estava esperando. Outras vezes, como desta vez, a muralha foi erguida na calada da noite. Essas eu sei que só serão derrubadas se eu abrir de uma vez as comportas da reserva onde estou represando um pavor intenso. E o começo do processo para encontrar esse botão é a escrita.

 

Há algumas semanas percebi que o luto da minha avó me confundiu e que o tema da perda se difundiu, com minhas lágrimas fluindo livremente por mais de um fim. É engraçado como chorei rios, mas também sangrei, sinal de que meus sentimentos se segregaram. O choro foi para lamentar a falta que já me faz a companhia da minha avó, que amava segurar na minha mão enquanto conversávamos. Mas me vi lamentando também uma parte do término que eu ainda não tinha processado: a ruína de um futuro inteiro imaginado e agora abandonado.

 

Eu acredito em amor à primeira vista porque, no momento em que te vi, comecei a traçar um caminho para nós dois. Agora que acabou, acho que tenho pavor da vida sem você. Sempre te vi como uma rede que me deu coragem para desamarrar tantos nós e, agora que estou sozinha, não parece que tenho chão firme onde pisar.

 

Claramente estou achando muito difícil esse novo caminhar.

 

Não é a primeira vez que tive que escolher entre amar ativamente a mim ou a um outro. É devastador que não houvesse espaço para os dois, de novo. Já estive aqui antes, já me fiz a mesma pergunta: agora que acabou, o que devo fazer com essa árvore de amor que nasceu gigante? Tenho vergonha de ainda visitá-la quando a vida fica difícil; quase me afogo na vontade de me render à tentação dos seus frutos. Mas, se cortá-la fosse possível, não sei se o faria — é um privilégio que suas raízes sejam tão profundas.

 

Sonho com o seu abraço.

 

Talvez eu esteja sangrando porque estou com pavor da vida sem meus dois grandes amores. Vou ter que aprender a seguir com esse vazio, acessando esse meu coração partido.

 
 
 

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